quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Farewell - 1 O Pacote

Package

“Acordo com um nada impressionante,
Um faz de conta incrível
E um fingir que me esgota.”
Antônio Nogueira

1 – O Pacote


O Sol mira a Rua Santo Gabriel. Esclarece os detalhes dos desenhos feitos pelo contraste entre as pedras brancas e pretas presentes nas curvas do piso da rua. O funcionário do serviço postal admira os cabelos dourados da criança a caminho da escola. “Bom dia cachinhos dourados”, ele diz. A menina risonha faz um gesto cordial com a cabeça e segue seu caminho.
Era muito cedo para uma entrega convencional. A dona de casa que, inutilmente, varre a frente de sua casa, admira-se com a presença espalhafatosa do homem de uniforme:
— Ora João, o que fazes aqui a essa hora? Com as sobrancelhas cerradas, as mão na cintura e o ar de beata, contemplava o homem de uniforme a espera de uma resposta. A resposta veio envolta à uma voz rouca, cansada, porém, apressada:
— Uma entrega urgente de ontem ainda. João não a tinha realizado dado ao fato que seu expediente já havia expirado. — Após o expediente um homem tem necessidades senhora — continuou.
Sua necessidade: a boemia.
Seus passos tornaram-se largos. Entre as mãos delgadas e pardas um pacote fazia volume. Era simples, embalado com um papel marrom, escrevinhado a caneta esferográfica preta. Tinha a forma de um paralelepípedo magro e comprido, mas não grande o suficiente para utilizar as duas mãos. O volume não fazia honrarias ao remetente. Era modesto em relação ao destinatário: Giuliane Arend, Rua Santo Gabriel número 25, Santa Maria – RS.
Ah! Enfim o bendito vinte e cinco. Casa simples. Um pavimento de cor salmon, enfeitado com duas janelas do tipo vitrô. Os vidros revezavam-se em tons amarelos e verdes. Não havia carro na garagem.
João tremeu, pois, sabia que já havia visto um carro por ali. E se não houver ninguém? E se o volume se tratar de um medicamento? E se eles tiverem ido para o hospital? Ou pior... Se eles tiveram ido à unidade postal? “Não posso ser tão azarado assim!” O estômago esfriou, as regiões falhas de cabelo em sua cabeça alagaram-se com suor os umedecendo. As mãos tremeram, os pulmões congelavam. Colocou o volume embaixo do braço. Fez soar suas palmas. Uma, duas, três vezes. Nada.
O peso da displicência montava os ombros de João.
Uma quarta vez, o som opaco do ar enclausurado entre seus dedos grossos fez-se estridente no eco da garagem alheia. O trinco da porta, esta localizada na lateral da casa era, enfim, forçado. O cintilar da esperança pousou nos olhos de João. A porta era aberta. Uma senhora de dimensões largas, cabelos curtos escuros e pele alva apareceu. Tinha um olhar penetrante. Os lábios rosados eram bem desenhados, com um sinal voluptuoso, sobre estes, ao canto esquerdo da boca. Vestida com uma longa camiseta branca em detalhes vermelhos e um suéter branco cruzou os braços, tentou arregalar os olhos a fim de esconder o inchaço das pálpebras, então, procurando se habituar a idéia de não estar mais dormindo, disse em um tom baixo e levemente irritado:
— O que era hein moço?
— Encomenda dona. Em nome de Giuliane Arend. A senhora cerrou as grossas e negras sobrancelhas, postou as mãos em cada lado do quadril e voltou-se a se dirigir ao entregador:
— Giuliane é minha filha. Quem manda moço?
— Ah, não tem remetente não dona.
— Me dê aqui. Abriu o portão, ergueu o braço e agarrou o volume. Sua testa formava vincos. Percebeu que não havia mesmo remetente. Fez beiço, manteve os vincos na testa e retrucou:
— Preciso assinar para receber?
— Ah, claro senhora, por favor. João estendeu sua prancheta ordenada pela folha onde sua assinatura jazeria.